Entrevista
CO que a grande imprensa não fala
sobre a reforma sindical


A repercussão na televisão, rádio e jornais do movimento de
oposição à reforma sindical deixa a desejar. Mas muito está sendo
feito por lideranças sindicais para que a Proposta de Emenda
Constitucional (PEC 369) e o Projeto de Lei (PL) que instituem a
reforma não sejam aprovados. Wagner Gomes, metroviário e
vice-presidente nacional da CUT (Central Única dos Trabalhadores), é
um dos membros da executiva da Central responsável pelas manifestações
contra a proposta de reforma sindical e, na entrevista que segue,
esclarece como a PEC foi elaborada, relata os motivos da oposição e
conta como as lideranças estão se organizando para evitar sua
aprovação
Plataforma – O
ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, afirma que houve consenso
entre trabalhadores, patrões e o governo, no Fórum Nacional do
Trabalho (FNT), onde o projeto de reforma sindical foi elaborado. A
informação procede?
Wagner Gomes – O
FNT foi criado logo depois que o presidente Lula foi eleito. Sua
formação tripartite teve como objetivo redefinir a legislação
sindical, com base nos princípios de organização sindical, negociação
coletiva e solução dos conflitos do trabalho. Isso durou 18 meses. As
coisas não andavam, justamente por causa das diferenças de pensamento.
No final do processo, foi concluído um relatório com alguns consensos
e muitos dissensos. O governo elaborou a PEC e o PL, que ampliou os
dissensos, e enviou ao Congresso. Agora temos a divisão entre quem
defende o projeto e aqueles que discordam.
Plataforma – Qual
a proporção daqueles que são a favor e contra a proposta de reforma
sindical na CUT?
Wagner – Avaliamos
que cerca de 50% dos sindicatos cutistas sejam contra a PEC 369, e
ainda, em reunião da diretoria executiva da CUT, quando o tema foi
debatido, apenas 13 dos seus 25 membros se manifestaram a favor da
proposta. Na Força Sindical e em outras organizações e lideranças dos
trabalhadores a situação é a mesma.
Plataforma – Quais
são os problemas da PEC e do PL?
Wagner – A
aprovação da PEC representa muitos riscos de perda para os
trabalhadores. Sua aprovação dará o aval para que a Constituição seja
alterada e, a partir daí, o PL passará a vigorar. Somos totalmente
contra a PEC. Toda a sua redação prejudica o poder de organização dos
trabalhadores, já que, entre outras coisas, acaba com a unicidade
sindical, autorizando a criação de mais de um sindicato responsável
pela representação de uma mesma categoria. Com relação ao PL,
discordamos dos artigos que reduzem a proteção legal do trabalhador,
põe fim ao dissídio coletivo, possibilita a redução de direitos
através da negociação, restringe o direito de greve a todos os
trabalhadores, entre outros.
Plataforma – Que
manifestações contra a reforma já foram feitas?
Wagner - Já
fizemos um grande ato na Assembléia Legislativa de São Paulo;
participamos de audiência pública com o ministro do Trabalho, na
Câmara dos Deputados, quando deixamos clara a nossa posição contrária
e disposição para lutar contra a sua aprovação, e também contamos com
outras entidades e lideranças, de outros estados, que já realizaram
atos em dez capitais brasileiras. Toda essa mobilização é resultado do
alto grau de rejeição à PEC no meio sindical brasileiro. É uma questão
que dividiu a CUT, mesmo dentro da Articulação Sindical, que é maioria
na Central.
Plataforma – Quais
são os próximos passos para que essa mobilização aumente?
Wagner – Agora
começa a batalha no Congresso. Precisamos esclarecer a sociedade e
parlamentares, demonstrar que esse projeto representa um retrocesso
para a organização dos trabalhadores. No próximo dia 14 participaremos
de mais um ato na Câmara Federal, e já prevemos a realização de uma
grande marcha a Brasília, com a participação dos mais diferentes
setores da sociedade, e os metroviários serão chamados para participar
dessa batalha.
Plataforma – O
apoio da CUT à proposta não é contraditório aos interesses dos
trabalhadores?
Wagner – A CUT é
um patrimônio de lutas que foi constituído pelos trabalhadores
brasileiros, é respeitada nacional e internacionalmente por sua luta
em defesa dos trabalhadores. É atacada constantemente pelos setores
mais reacionários da sociedade e tem conduzido a luta contra o modelo
neoliberal. Suas divergências internas não podem justificar atitudes
que signifiquem o seu enfraquecimento. Por isso somos contra a reforma
sindical dentro da CUT, lutamos para demonstrar os prejuízos que essa
reforma pode trazer aos trabalhadores, e acreditamos que as diferenças
de concepção não impedem a unidade na luta, como estamos fazendo com a
Campanha Salarial Unificada.