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Nº 461 - 22/09/2004

 

30 anos de Metrô
A história em migalhas

Não por acaso, os defensores de políticas autoritárias sempre manipulam os fatos para forjar suas interpretações e excluírem os trabalhadores da história.

No Metrô não é diferente e a farsa já estava presente na demonstração do funcionamento do metrô, em 6 de setembro de 1972, quando o presidente Emílio Garrastazu Médici, apertou uma campainha para avisar o operador que deveria funcionar o trem, fazendo todos jornais, que eram controlados pelo ditador, divulgarem no dia seguinte que o trêm fora acionado por ele à distância.

A inauguração oficial do metrô ocorreu em 14 de setembro de 1974, mas a história continuou a ser contada através de publicações oficiosas, em capítulos divididos pelos períodos das gestões dos governos do Estado, com dados sobre os investimentos na expansão, aplicação de novas tecnologias, número de usuários e outros dados técnicos.

Assim passaram-se 30 anos. O autoritarismo abandonou a farda, mas não a estratégia de apagar a luta dos metroviá-rios na construção e consolidação do Metrô como uma empresa pública, que presta um serviço de qualidade para a população paulistana.

A estratégia dos governantes de mascarar os conflitos entre capital e tra-balho no Metrô fragmentou a história da empresa em migalhas de informações técnicas, mas nem sempre precisas, como ocorreu recentemente nos dados publicados na reportagem da edição do dia 16/9 do jornal Diário de S.Paulo, que constatou que os governadores do PSDB tiveram o pior desempenho nos 30 anos de funcionamento do metrô de São Paulo.

Tucanos têm o pior desempenho
Comparando o crescimento do Metrô em cada gestão, a reportagem sustentou que os tucanos Mário Covas e Geraldo Alckmin entregaram à população apenas 14,2 quilômetros de linhas, desempenho pior que o do PMDB de Orestes Quércia e de Paulo Maluf, do PP.

Os dados foram fornecidos pela assessoria de imprensa do Metrô, que informou nomes de governadores, períodos de administração, números de estações e quilômetros de linhas construídas nas gestões desde 1974, quando foi ini-ciada a operação comercial. Depois a empresa alegou que a tabela estava errada, mas não explicou as falhas, alegando que a leitura detalhada da herança metroviária de cada gestão mostra que o desempenho de Paulo Maluf foi inferior, em média, ao dos tucanos.

A realidade é que os governos tucanos não investiram recursos públicos na expansão e manutenção do sistema metroviário, e o metrô de São Paulo é mantido só com o valor das tarifas. Além disso, a redução de custos implantada na empresa poderá afetar a qualidade dos serviços, pois além do reduzido quadro de funcionários, falta até papel higiênico em algumas estações.

Para especialistas em transporte, o metrô completou 30 anos com a malha três vezes menor do que deveria ter, pois seriam necessários cerca de 200 km de trilhos para atender a demanda e há apenas 57,6 km.

Atraso nas obras
Mesmo com as críticas, o governador Geraldo Alckimin, acompanhado do seu amigo tucano que é candidato a prefeito, tentou usar a data comemorativa do Metrô para pousar de empreendedor com a construção da Linha 4 e a expansão da linha 2. Porém, o que ele esconde é que estas linhas já deveriam estar funcionando, pois as obras estão atrasadas por incompetência do governo do Estado em realizar licitações transparentes, obrigando o Ministério Público a suspender, por diversas vezes, o início das obras. Além disso, com a construção da Linha 4 (Amarela), a rede passará a ter 73,3 km, o que é ainda insuficiente para atender a demanda.

Outro fato importante é que as obras da Linha 4 podem sofrer mais atrasos, pois ainda não está definida a concessão da operação, prevista pelos tucanos. Os investidores não têm demonstrado interesse na proposta.

Prática excludente
Mas com a história oficial excluindo a luta dos metroviários na defesa do Metrô público, estatal, com qualidade e tarifas acessíveis, resta ao governo tucano divulgar uma história sem qualquer vínculo com a categoria no espaço entre o passado e o presente. Essa prática excludente também afasta qualquer perspectiva de valorização profissional no futuro, o que talvez explique a razão pela qual o Metrô ainda não implantou o plano de carreira para a categoria.

23 anos de luta
Embora a classe dominante sempre faz o possível para encobrir o significado histórico da organização dos trabalhadores, sabemos que cada página da história do metrô se desenvolveu num período de intenso embate social contra a ditadura militar e de grande agitação política e sindical.

Com o clima de redemocratização do país, prosperou a reabertura dos sindicatos livres e, como conseqüência, no dia 7 de novembro de 1980 os metroviários foram reconhecidos como categoria profissional pelo Ministério do Trabalho. Após fundarem a AEMESP em janeiro de 1981, a categoria transformou a Associação em sindicato em agosto daquele ano.

Desde então, a história das relações trabalhistas no metrô continua marcada por lutas frequentes da categoria contra as gestões autoritárias, que visam retirar direitos e atacar conquistas obtidas ao longo dos anos.

Hoje, a categoria ainda luta contra a privatização do sistema, a terceirização dos serviços, pelo o pagamento da periculosidade, contra a retirada da hora extra programada noturna, extinção da função de OE, descaracterização dos AS’s e AE’s, alteração de escala, o fim do CCI e pelo pagamento do adicional risco de vida dos AE’s e CSO. Mas todos sabem que esta luta só poderá ser desenvolvida com o envolvimento de todos.

Porém, o que há de importante na história fragmentada dos 30 anos do metrô, é a certeza que a categoria deve manter a determinação de lutar em defesa os seus direitos e conquistas, mantendo latentes seus valores de solidariedade de classe e a proposta de uma sociedade justa e igualitária.

Parabéns metroviários, pois a história do metrô sempre estará incompleta se não contar a trajetória de luta da categoria.

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